Hoje, enquanto estava em casa, uma cena na TV capturou minha atenção: um senhor idoso não reconhecia sua neta, mesmo ela insistindo que era a “princesa” dele. O homem, visivelmente aborrecido, repetiu que não a conhecia e pediu que ela saísse. A cena me emocionou profundamente, mesmo sem ter visto o filme, mas obviamente, o senhor da cena sofria de alguma demência ou alzheimer. Era o Filme “Nunca te esquecerei”. Fiquei pensando nas inúmeras ocasiões em que refleti sobre esse tema, sob as perspectivas filosófica, psicológica e neurocientífica, especialmente nas conversas que tive com meu esposo, meu principal interlocutor. Essa experiência se tornou a motivação central para iniciar este texto.
A questão da identidade pessoal, o que nos torna únicos e singulares ao longo do tempo, é um tema central na filosofia, na psicologia e, mais recentemente, na neurociência. A demência, em suas diversas formas, desafia essa noção de identidade ao deteriorar a memória, componente essencial na construção do “eu”. Mas até que ponto a perda de memória afeta a pessoa? Seriam nossas memórias o único alicerce da nossa identidade?

Do ponto de vista da neurociência, a memória é um processo complexo que envolve diversas áreas cerebrais e se manifesta em diferentes tipos, como a memória episódica (eventos autobiográficos), semântica (conhecimento geral sobre o mundo) e procedural (habilidades motoras). A doença de Alzheimer, por exemplo, afeta inicialmente a memória episódica, comprometendo a capacidade de recordar eventos e experiências pessoais. Estudos de neuroimagem mostram como a atrofia em regiões como o hipocampo e o córtex entorrinal se correlaciona com a perda progressiva da memória autobiográfica.
A filosofia, por sua vez, tem se debruçado sobre a questão da identidade pessoal há séculos. John Locke, no século XVII, propôs que a continuidade da consciência, em grande parte dependente da memória, é crucial para a identidade pessoal. Para Locke, se não me lembro de minhas ações e experiências passadas, não sou a mesma pessoa que as vivenciou. Essa perspectiva encontra ressonância na experiência de pacientes com Alzheimer, que, à medida que perdem suas memórias, parecem perder também parte de sua história e, consequentemente, de si mesmos.
A psicologia, em especial a psicologia da personalidade, também contribui para essa discussão. A personalidade, conjunto de características e padrões de comportamento relativamente estáveis ao longo do tempo, é moldada por experiências, valores e crenças, muitos dos quais armazenados na memória. A perda de memória, portanto, pode afetar a expressão da personalidade, alterando comportamentos, emoções e a forma como o indivíduo interage com o mundo.

Como fica a identidade de alguém que perdeu suas lembranças e memórias?
Se seguirmos a linha de pensamento de Locke, concluímos que a identidade pessoal se dissolve junto com a memória. No entanto, essa visão, embora influente, não é unânime. Outros filósofos, como Derek Parfit, argumentam que a identidade não depende exclusivamente da continuidade psicológica, mas de relações de semelhança e continuidade funcional ao longo do tempo. Em outras palavras, ainda que a memória se perca, certos traços fundamentais da personalidade e da forma de interagir com o mundo permanecem, garantindo algum nível de continuidade do “eu”.
A neurociência apoia essa visão ao demonstrar que a memória, embora crucial, não é o único pilar da identidade. Estudos sobre pacientes com Alzheimer revelam que, mesmo com perdas significativas da memória episódica, muitos preservam habilidades emocionais e sociais. Expressões de afeto, preferências musicais, traços de humor e até mesmo padrões éticos de comportamento podem persistir, indicando que a identidade vai além do mero acúmulo de lembranças.
Além disso, a psicologia aponta que o ambiente social desempenha um papel fundamental na manutenção da identidade. A maneira como familiares e amigos interagem com uma pessoa acometida por uma doença neurodegenerativa pode ajudá-la a ter uma noção de si mesma, ainda que fragmentada. Chamá-la pelo nome, relembrar histórias compartilhadas e manter interações afetivas reforçam laços que transcendem a memória consciente.
Portanto, mesmo que a perda da memória abale profundamente a identidade pessoal, ela não a aniquila a identidade do indivíduo por completo. O “eu” pode se reconstruir em novas bases, apoiando-se em outros aspectos da existência humana, como emoções, relações e padrões inconscientes de comportamento. A identidade, então, não se limita ao que lembramos de nós mesmos, mas também ao que sentimos, ao que os outros nos devolvem e ao modo como seguimos habitando o mundo, mesmo quando nossas lembranças estão fadadas ao desaparecimento.
Di Fraga.

Deixe um comentário