Quem Nunca Enterrou um Amigo Vivo?

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O Primeiro Enterro: O Que Mais Doeu

Três amigas da faculdade, mais de dez anos de amizade. Rimos e choramos juntas. Mas as coisas começaram a desandar quando comecei a discordar. Argumentar, algo tão natural para mim, passou a ser visto como ofensivo. O que antes era troca de ideias virou campo minado.

O ápice? O fato de eu ser vegetariana virou piada ofensiva a ponto de mandarem fotos do bicho morto no prato. A aparência do meu esposo — isso foi na época em que Trump tinha sido eleito pela primeira vez — virou motivo de comentários xenofóbicos. “Ele vai ser barrado no aeroporto, parece muçulmano”, diziam. Era uma época em ele pensava seriamente em fazer um pós-doc nos EUA. E eu me perguntava: quem precisa de gente assim?

Nove anos sem contato. Não desejo mal.


O Segundo Enterro: Menos Dor, Mesma Decepção

Três amigas novamente — começo a desconfiar que o número três me persegue. Elas pareciam diferentes. Receptivas. Abrimos nossa casa, fizemos sessões de filmes, meu esposo cozinhava com carinho. Parecia perfeito.

Até que, por uma delas, soube da verdade: as outras duas julgavam meu relacionamento, faziam piadinhas quando estávamos longe. Sugeriam que jamais debateriam Filosofia conosco  já que “não sabíamos fazer isso”. Irônico, considerando que eu e meu esposo somos frutos da Filosofia da Linguagem e Analítica. A piada estava nelas, não em nós.

O que mais doeu? Saber que nos viam com tanto desrespeito, mesmo sendo tratadas com o máximo respeito. Para elas, argumentar era sinônimo de ofensa, aqui também a história se repete. Não por acaso, cada uma migrou para áreas da Filosofia onde a livre associação é bem aceita. Pensar dá trabalho, né? Essas foram apenas algumas das muitas injúrias proferidas contra nós. Tem coisa que a gente não perde, a gente se livra realmente. 


Lições e Reflexões


Essas são minhas histórias e aposto que você já viveu algo parecido. Talvez não com o mesmo roteiro, mas com o mesmo enredo: amizades que precisavam ser enterradas para o seu próprio bem psicológico.
Não é sobre rancor. É sobre saúde mental. Relacionamentos tóxicos, especialmente amizades, podem ser prejudiciais de formas que nem sempre percebemos de imediato. Eu demorei anos e muitas leituras para entender isso e hoje poder escrever tudo isso aqui na tentativa de ajudar outras pessoas.


Teorias sobre Amizades Tóxicas:


Carl Rogers, psicólogo humanista, defendia a importância da autenticidade e da aceitação incondicional positiva nas relações. Se você não pode ser quem é sem medo de julgamento, há algo errado.


Aristóteles, em sua “Ética a Nicômaco”, diferenciava amizades de utilidade, prazer e virtude. Amizades verdadeiras são baseadas na virtude, onde ambos crescem juntos. Se uma relação não te faz crescer, mas te diminui, não é uma amizade virtuosa.


Albert Bandura, com sua teoria do aprendizado social, mostrou como somos influenciados pelo ambiente e pelas pessoas ao nosso redor. Cercar-se de pessoas negativas afeta diretamente seu comportamento e autoestima.


O Impacto na Saúde Emocional


Pesquisas em psicologia evidenciam que relações saudáveis são fundamentais para o bem-estar emocional. Conexões baseadas em respeito mútuo, empatia e apoio fortalecem a autoestima, reduzem o estresse e promovem a resiliência. Por outro lado, amizades tóxicas funcionam como gatilhos constantes de tensão, elevando os níveis de ansiedade e, em casos extremos, contribuindo para o desenvolvimento de quadros depressivos. A presença contínua de críticas veladas, desvalorização e falta de apoio emocional mina a saúde mental de forma silenciosa, mas devastadora.


O Direito de Escolher


Sendo assim, enterrar um amigo vivo é um ato de amor próprio, não de egoísmo. Trata-se de um gesto de autocuidado necessário, porque não somos responsáveis por salvar o mundo, muito menos por consertar pessoas. O respeito começa por você mesmo, ao reconhecer que merece relações que nutram e inspirem, não que desgastem e diminuam. Você tem o direito — e o dever consigo — de escolher quem permanece na sua vida, preservando sua paz e integridade emocional.

Di Fraga.

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