O Hetero Homoafetivo e o Clube do Bolinha: uma ironia chamada masculinidade frágil

Published by

on

Existe um sujeito em particular que me intriga e deveria intrigar qualquer mulher que se respeite: o hetero homoafetivo. Não confunda com o homem gay. Estou falando do homem heterossexual que deseja mulheres sexualmente, mas reserva todo o seu campo de afeto, escuta, admiração e camaradagem para outros homens. Para rir, trocar ideias, dividir a cerveja, jogar conversa fora ou até mesmo se abrir emocionalmente, ele prefere o “grupo dos parças”. Já a mulher? Ela serve funções pré-estabelecidas, quase sempre reduzidas à algum papel menor.

Esse homem, embora deseje a mulher como corpo, não a reconhece como presença simbólica, como interlocutora, como par intelectual ou afetivo. Ela está fora do jogo do prazer emocional. Ela é um “meio” (para filhos, para sexo, para status ou para qualquer outra coisa). O “fim” é o outro homem.

Sim, senhoras e senhores, estamos falando do famoso Clube do Bolinha, aquele bastião da masculinidade frágil onde mulher na mesa com vários homens é quase um atentado ao pudor. Um homem do tipo hétero homoafetivo se incomoda profundamente com a presença feminina em espaços de convívio entre homens. “Deusulivre”, como diriam eles. Mulher é vista como invasora em territórios de afeto masculino. E é aí que mora a ironia: o homoafetivo aqui não é o gay, é o hétero que vive em torno do afeto masculino, mas que precisa se afirmar como macho alfa toda vez que uma mulher ousa se aproximar.

O mais revoltante e, ao mesmo tempo, revelador, é que essas atitudes escancaram uma mentalidade misógina profundamente arraigada, onde mulher é corpo, não pessoa. É função, não sujeito. É objeto de desejo, não interlocutora. Homens que vivem emocionalmente entre homens e sexualmente com mulheres não estão apenas reafirmando sua heterossexualidade: estão confirmando o quanto não suportam a ideia de que uma mulher seja sua igual.

E é aqui que eu quero fazer um apelo, ou melhor, um chamado à lucidez: nós, mulheres, precisamos parar de tentar ser aceitas no tal Clube do Bolinha. Precisamos parar de buscar aprovação, de querer fazer parte da rodinha dos “inteligentes”, dos “engraçados”, dos “resolvidos”, dos “bem sucedidos”. Eles não nos querem lá. E mais: eles nem sabem o que fazer com uma mulher que tem conteúdo, senso crítico, presença real e ainda é bem resolvida!! Eles querem apenas o eco das próprias vozes.

Devemos aprender com essa exclusão forçada uma lição poderosa: cultivar nossa própria companhia e fortalecer nossa presença entre mulheres. Somos ricas em afeto, em repertório, em profundidade. E não precisamos de homens para validar nossos interesses, nosso prazer, nosso silêncio, nossa alegria, nosso intelecto.

Uma experiência isolada

Me lembro de quando morei em Santiago do Chile por um ano, sozinha: eu saía sozinha, jantava sozinha, andava por bares e museus no máximo na companhia de um livro ou da minha câmera fotográfica. Me olhavam torto. Como se uma mulher só pudesse ocupar o espaço público acompanhada de um homem, claro. É ofensivo, para muitos, ver uma mulher satisfeita consigo mesma. Porque isso é poder. E poder feminino assusta.

E aí, lembro de uma frase da Clarice Lispector que carrego como mantra:

“A Liberdade ofende”

Um homem sozinho: tudo certo.
Uma mulher sozinha: ofensivo, suspeito, mal amada.
Homens em grupo: são amigos, aliados, parceiros.
Mulheres em grupo: são vistas como ameaça, como “panelinha”, como competição armada.

Porque a união entre homens é celebrada como irmandade mas a união entre mulheres é lida como conspiração?

A verdade é simples (e incômoda):
O sistema não teme o homem livre ele teme a mulher livre (acompanhada ou não).

Homens que vivem emocionalmente entre homens, e sexualmente com mulheres, não nos oferecem amor, nos oferecem utilidade.

Mulheres, se atentem. Porque nosso tempo é sagrado demais para ser desperdiçado com homens que não nos oferecem nada além da confirmação de que ainda há muito a ser desconstruído. Chega de companhias que nos usam como função e depois correm para o bromance (clique aqui para ler o significado) afetivo dos amigos. Se querem tanto viver entre eles, que o façam com orgulho e sem nos instrumentalizar para isso.

Quanto a nós, vamos nos bastar, nos cuidar e nos cercar de pessoas que sabem ser companhia real. O resto? Que fique no seu clubinho, trancado com suas cervejas, suas companhias mornas e suas conversas rasas.

Deixe um comentário