O que é um Incel?

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O termo incel vem de “involuntary celibate”, ou seja, “celibatário involuntário”. São, em geral, homens heterossexuais que dizem ser incapazes de estabelecer relações amorosas ou sexuais, apesar de desejá-las. O termo em si não é clínico, mas um rótulo cultural que ganhou força em comunidades online, especialmente fóruns como Reddit e 4chan. Muitos incels carregam sentimentos profundos de frustração, misoginia, isolamento e ressentimento, e alguns grupos mais extremos chegaram a incentivar a violência.

Agora, vamos por partes:

Psicologia e Psiquiatria — o que dizem sobre incels?

Até o momento, “incel” não é um diagnóstico oficial em manuais como o DSM-5 ou CID-11. Mas muitos especialistas apontam quadros psicológicos comuns entre aqueles que se identificam como incels:

  1. Transtornos depressivos e ansiosos: sentimento de inadequação, desesperança e tristeza são recorrentes.

  2. Transtornos de personalidade: especialmente transtornos do espectro esquizóide, evitativo e narcisista.

  3. Isolamento social: muitos apresentam uma história de dificuldades sociais desde a adolescência.

  4. Baixa autoestima: frequentemente ligada à autoimagem e rejeição social.

  5. Comportamentos obsessivos: principalmente em relação à aparência física, padrões de beleza e sexualidade.

  6. Misoginia internalizada ou aprendida: em alguns casos, alimentada por espaços virtuais que reforçam discursos de ódio.


Embora muitos sofram psiquicamente, não há evidência de que todos os incels tenham transtornos mentais. O ponto é que a cultura do grupo muitas vezes reforça crenças disfuncionais e ideias radicais, o que agrava quadros existentes.

E a neurociência? O que ela diz sobre o cérebro de um incel?

A neurociência ainda não tem estudos específicos com “incels”, até porque o grupo é mais definido por uma identidade cultural e social do que por uma síndrome médica ou neurológica.

Mas há estudos sobre comportamentos semelhantes, como:

  • Isolamento social prolongado altera circuitos de recompensa no cérebro, reduzindo a sensibilidade ao prazer e aumentando o risco de depressão.

  • Rejeição social repetida ativa áreas ligadas à dor física, como o córtex cingulado anterior.

  • Ódio e hostilidade persistentes, como os expressos em comunidades incel, também têm relação com padrões cerebrais alterados na amígdala e no sistema límbico, que processam emoções negativas.


Não há, porém, um “cérebro incel”, mas sim padrões que podem emergir em pessoas isoladas, frustradas e hostis, independentemente do rótulo que adotem.

Foto por Yan Krukau em Pexels.com

Nem todo incel é psicopata, mas alguns psicopatas podem ser incels

É essencial fazer distinções:

  • Incel é uma identidade social que emerge de frustração afetiva e sexual, muitas vezes reforçada por comunidades online.

  • Psicopatia, por outro lado, é uma condição clínica caracterizada por falta de empatia, manipulação, impulsividade e ausência de culpa.

A maioria dos incels não é psicopata, mas alguns indivíduos psicopatas podem adotar a identidade incel — e, nesse caso, o risco de comportamento violento aumenta consideravelmente. O ponto em comum entre o incel radicalizado e o psicopata é a objetificação do outro e a ausência de empatia. Em ambos os casos, o outro (geralmente a mulher) é visto como um obstáculo, um prêmio inalcançável ou um inimigo.

Perfil Psicológico e Comportamental dos Incels

Estudos recentes têm explorado as características psicológicas dos incels. Uma pesquisa publicada no Journal of Social, Behavioral, and Health Sciences revelou que, em comparação com outros grupos, os incels apresentam pior saúde mental, tendência ao vitimismo e maior interesse em sexo casual. Além disso, o estudo constatou que os incels são politicamente e etnicamente diversos, contrariando estereótipos generalizados sobre o grupo. Veja mais aqui

Outro estudo, publicado na revista Personality & Individual Differences, indica que os incels tendem a superestimar o grau em que a sociedade os culpa por seus problemas e subestimam o nível de simpatia que outras pessoas sentem por eles. Essa distorção na percepção sugere uma desconexão significativa entre a realidade social e a forma como os incels interpretam as atitudes dos outros. Para ler mais sobre a pesquisa, clique aqui

Dinâmicas de Comunidade e Discurso Online

A análise de fóruns online frequentados por incels revela uma produção significativa de termos e identidades únicas. Embora os termos para mulheres sejam os mais comuns, menções a outras identidades minoritárias estão aumentando. Uma análise das associações feitas com grupos identitários sugere uma ideologia essencialista, onde a aparência física, bem como hierarquias de gênero e raça, determinam o valor humano. Estudo disponível aqui.

Radicalização e Riscos de Violência

A preocupação com a radicalização dentro da comunidade incel tem levado a estudos sobre a prevalência de linguagem violenta nesses fóruns. Uma pesquisa analisou mais de 6,9 milhões de postagens no fórum incels.is e descobriu um aumento geral na linguagem violenta ao longo do tempo, especialmente entre os usuários mais engajados. Embora a linguagem violenta direcionada tenha diminuído, a linguagem violenta não direcionada aumentou, e o conteúdo relacionado a autoagressão mostrou declínio, especialmente após 2,5 anos de atividade do usuário.

Influência Cultural e Mídia

A série da Netflix “Adolescência” – próximo post irei explorar um pouco mais a série fazendo contraponto com outro caso famoso – trouxe à tona a exposição de adolescentes a conteúdos misóginos nas redes sociais e seu impacto em crenças e comportamentos. A trama aborda a influência negativa de figuras como Andrew Tate, que disseminam mensagens machistas e desumanizador em relação às mulheres. Especialistas recomendam a criação de um diálogo em casa e nas escolas para educar o pensamento crítico e fomentar a autoestima nos jovens. Para ver o que diz os especialistas sobre isso, clique aqui

As pesquisas recentes sobre incels destacam a complexidade dessa subcultura e os desafios associados à sua compreensão e abordagem. A diversidade dentro da comunidade, as distorções perceptivas e os riscos de radicalização apontam para a necessidade de estratégias multifacetadas que envolvam educação, apoio psicológico e monitoramento de discursos online para mitigar potenciais impactos negativos na sociedade.

Di Fraga – veja a continuação desse texto no próximo post.

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