De Odete a Odete: o que mudou entre Beatriz Segall e Débora Bloch é muito mais do que o tempo

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A televisão brasileira tem um estranho talento para transformar vilãs em ícones. Entre todas, talvez nenhuma seja tão lembrada quanto Odete Roitman, a empresária fria, arrogante, calculista e brutalmente elitista de Vale Tudo. Na versão original da novela, exibida em 1988, a personagem vivida por Beatriz Segall se tornou símbolo de um tempo. Mas o que muitos esquecem é que, para além da vilania, Odete representava uma ideia cultural mais profunda: a de que mulheres poderosas eram, no fundo, mulheres infelizes.

Essa representação não era casual. Durante décadas, a mulher que se destacava no mundo dos negócios era retratada, quase inevitavelmente como alguém que havia “fracassado” na esfera emocional. Era a solteirona, a divorciada, a que “subiu na vida, mas ficou sozinha”. A sociedade “aceitava” que uma mulher ambiciosa ocupasse espaços de liderança, desde que pagasse um preço: a solidão afetiva, a amargura, o vazio de uma existência sem amor romântico. A Odete de Segall não fugia dessa narrativa: por trás da frieza, havia sempre a sugestão de uma ferida não curada, um ressentimento que explicava (e de certa forma justificava) sua aspereza.

Trinta e sete anos depois, em 2025, a releitura da personagem feita por Débora Bloch chega com outro peso simbólico. A nova Odete ainda é cruel. Ainda manipula, ainda exerce seu poder com frieza. Mas há uma mudança fundamental: ela não parece carregar nenhuma frustração amorosa como “causa” de sua conduta. Ela não odeia os homens por tê-los amado e sido ferida. Ela simplesmente não os coloca no centro da equação. E essa pequena grande mudança diz muito sobre o nosso tempo.

Se a primeira Odete era o reflexo de um imaginário onde o poder feminino precisava vir acompanhado de um preço emocional, a nova Odete representa outra camada do discurso: a autonomia como ponto de partida, e não como compensação. Sua falta de interesse em afetos não é uma punição, é uma escolha. E isso altera profundamente o lugar simbólico da personagem.

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Não se trata aqui de aplaudir a sua crueldade ou esvaziar as implicações éticas de sua frieza. Odete segue sendo uma figura moralmente questionável, e é preciso dizer isso com clareza. Mas ao separar o poder feminino da narrativa do ressentimento amoroso, a novela atual propõe , ainda que de forma discreta, uma revisão dos papéis de gênero. A mulher bem-sucedida já não precisa ser infeliz no amor para ser plausível na ficção. Ela pode simplesmente não desejar o amor, pelo menos não aquele que sempre lhe foi imposto como destino.

A nova Odete não precisa justificar sua autonomia. Ela não implora afeto, não busca aprovação masculina e, talvez por isso mesmo, seja mais ameaçadora aos olhos de uma sociedade que ainda exige certa docilidade da mulher, mesmo quando ela já conquistou tudo.

O que incomoda na nova Odete, para além da sua vilania clássica, é que ela representa um tipo de liberdade feminina que ainda causa desconforto: a de não precisar do outro para existir, nem mesmo como antagonista.

Enquanto a Odete de Segall parecia pedir licença para existir em um mundo masculino, a de Bloch invade a sala, senta-se à mesa e comanda a conversa. Se antes a independência feminina era lida como punição afetiva, hoje ela é afirmada como possibilidade de liberdade.

Odete continua sendo vilã. Mas agora, vilã num mundo que já não teme tanto mulheres que falam alto, ganham mais, decidem por si e se recusam a amar só para parecerem humanas.

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