Esse meu texto começa com uma história real seguida de uma estória fictícia que pretende, através de experimentos mentais, proporcionar uma oportunidade de se pensar o conceito de meritocracia.
Eu poderia começar todas essas histórias com um “Era uma vez…” aos moldes das histórias fofas infantis que eu lia e ouvia quando criança, mas nesse contexto, não me parece conveniente, a não ser que eu quisesse soar irônica.
Trata-se de histórias tristes, que envolvem crianças, inocência e um pouco de crueldade humana.
Primeira História: Virgínia, 32 anos, Fotojornalista, criou um projeto de entrevistas com pessoas em situação vulnerável – a cidade não vem ao caso, para proteger a identidade de pessoas envolvidas. A entrevista mais impactante do projeto foi de uma menina de 20 anos, Maria (nome fictício), filha de uma catadora de lixo e pai alcoólatra. Em seu depoimento, Maria disse que o pai obrigava a mãe a ter relações sexuais na frente das filhas. Num determinado dia, diante de uma briga, o pai jogou a mãe de uma altura considerável, matando-a. Maria saiu de casa revoltada e se tornou moradora de rua. Foi na rua que aprendeu a usar. Depois de 8 anos em situação vulnerável, maria perdeu também a irmã e o pai. Há 04 anos, Maria engravidou na rua, seu filho foi-lhe tirado ainda na maternidade e dado para adoção. Segundo seu depoimento, seu maior medo é ser violentada e seu medo não é irrelevante, No Brasil, 51% das moradoras de rua já sofreram algum tipo de violência sexual e/ou física. Os casos são recorrentes em todo o país. Nos abrigos, o risco aumenta ainda mais, levando algumas delas a não irem para esses lugares mesmo em dias muito frio. Quando perguntada sobre seu maior sonho, Maria responde:
“Tudo que eu quero é um trabalho para conseguir sair da rua e poder viver em paz”.
Segunda História: Maria Alice cresceu em meio ao luxo e conforto de uma família rica. Desde pequena, teve acesso a tudo o que poderia desejar, mas isso não a impediu de ser uma jovem determinada e dedicada. Seus pais sempre a incentivaram a buscar seus próprios sonhos, e ela decidiu seguir uma carreira na área da saúde, mais especificamente, odontologia.
Ao ingressar na faculdade de odontologia, Maria Alice se viu em um ambiente totalmente diferente do que estava acostumada. Longe dos privilégios familiares, ela precisava estudar, fazer novas amizades e construir sua própria jornada. No início, enfrentou desafios comuns a todos os calouros, mas sua determinação a impulsionava a superar cada obstáculo.
Bem, mas o que essas histórias têm a ver com a meritocracia? Antes de responder essa pergunta, é preciso explicar antes como ela é entendida pelo brasileiro médio.
A meritocracia é um conceito que tem sido interpretado de várias maneiras ao longo do tempo e muitas vezes depende das perspectivas individuais. No entanto, em termos gerais, as pessoas que defendem a meritocracia, pressupõe que todos tem igualdade de oportunidades, ignorando quaisquer fatores como classe social, origem étnica, gênero, religião, fatores psicológicos. O discurso meritocrata acredita fielmente que os benefícios na sociedade devem ser distribuídos de acordo com o esforço individual, talento e mérito individual. Aqueles que trabalham duro, se esforçam e demonstram habilidades devem ser recompensados com oportunidades, promoções, aumento de salário e outros incentivos. Estamos falando aqui da ideia de que a competição deve ser igual – mesmo ponto de partida para todos – porque, para eles, as pessoas competem em condições iguais, com base em seu mérito e esforço. Se você se esforça, você alcança, se você não alcançou é porque não se esforçou o bastante. Ou seja, eles ignoram completamente o papel da EQUIDADE na sociedade.

Quando falamos em equidade, estamos falando de garantir que cada pessoa tenha acesso a oportunidades, recursos e benefícios de maneira proporcional às suas necessidades e capacidades. Em outras palavras, trata-se da compensação das desigualdades e injustiças – centenárias – de modo que aqueles que enfrentam desvantagens recebam um tratamento mais favorável para alcançar um ponto de partida ou um resultado mais igualitário. Isso pode envolver a implementação de políticas públicas, programas de ação socia e outras medidas para corrigir desigualdades sistemáticas e estruturais.
Ou seja, a Maria – personagem da nossa primeira história – não pode ser comparada à Maria Alice, que sempre teve casa, comida, roupa lavada, estrutura familiar, financeira e consequentemente, estrutura psicológica. A Maria não tem – nem nunca teve – as mesmas oportunidades que a Maria Alice e nunca terá, caso o Estado não garanta o mínimo de oportunidade para que ela possa iniciar sua vida de forma diferente, mesmo que ela se esforce muito, sabe??
Não há igualdade de oportunidades quando se trata de dois extremos porque somos um país com um grande índice de desigualdades socioeconômicas, discriminação sistêmica e outros obstáculos que podem dificultar o acesso igualitário aos recursos e oportunidades. Portanto, a interpretação e aplicação da meritocracia, tal como mencionada aqui, é produto de um discurso não só infundado e falido, mas também falso.
Além de tudo isso que foi dito, o meritocrata não leva em considerações os fatores psicológicos individuais de cada pessoa e na tentativa de se justificar, trazem exemplos do tipo:
“Eram irmãos, um foi estudar e o outro virou traficante”
E aqui esse discurso se denuncia novamente como falacioso da generalização apressada e o argumento para isso é muito simples: Se você pegar gêmeos idênticos, eles terão comportamentos diferentes diante da mesma situação. Isso porque, apesar de compartilharem a mesma base genética, gêmeos idênticos podem ter experiências pessoais significativamente diferentes ao longo de suas vidas. E essas experiências pessoais desempenham um papel crucial na formação de seus comportamentos, personalidades e escolhas.
Ambiente familiar: gêmeos idênticos podem crescer em um ambiente familiar que lhes proporciona experiências, interações e oportunidades distintas.
Amigos e pares: Eles podem desenvolver diferentes grupos de amigos e relacionamentos sociais, o que pode influenciar seus comportamentos e interesses.
Educação: Suas experiências escolares podem ser diferentes, levando a diferentes níveis de conhecimento e habilidades.
Eventos de vida: gêmeos idênticos podem enfrentar diferentes eventos de vida, como perdas, conquistas e desafios, que moldarão suas perspectivas e respostas emocionais.
Portanto, embora os gêmeos idênticos compartilhem uma base genética comum, suas experiências pessoais únicas moldarão suas personalidades e comportamentos ao longo do tempo. Isso é uma demonstração do papel complexo da natureza e da criação na formação da identidade de uma pessoa. A genética estabelece o cenário, mas as experiências pessoais preenchem os detalhes e moldam o resultado final.
O discurso meritocrata é triste de vários modos, mas ele é também cruel, porque sua existência são sintomas de duas coisas de nossa sociedade: 1) a total negligência em relação a própria realidade – e então é preciso torcer pela boa vontade desse indivíduo para furar a própria bolha – ou 2) a completa falta de empatia com quem vive à margem da sociedade e aqui a situação é bem mais grave, já que toda a base da moralidade se dá na empatia.
Para efetivamente avançarmos em direção a uma sociedade mais justa e igualitária, é preciso priorizar a busca pela equidade social. Essa meta pode ser alcançada por meio da implementação de projetos que tenham como objetivo eliminar as disparidades sociais. Embora a metáfora “ensinar a pescar” destaque a autonomia e capacitação, é essencial reconhecer que as pessoas precisam de condições mínimas para aprender. Nesse contexto, o papel do Estado é assegurar essas necessidades básicas, permitindo que cada indivíduo alcance verdadeira autonomia e independência do sistema.
Di Fraga.

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