A ausência da Verossimilhança aristotélica em Vale Tudo 2025

Em sua obra fundamental Poética, o filósofo grego Aristóteles faz um diagnóstico poderoso sobre a natureza da narrativa, sobretudo no teatro: mais do que simplesmente relatar o que aconteceu, a arte deve apresentar o que poderia acontecer, isto é, eventos que, embora possamos reconhecê-los como ficcionais, conservam-se críveis à luz da experiência humana. Aqui há um ênfase importante ao princípio da verossimilhança, que nada mais é que aquilo que poderia acontecer na realidade.

Ele argumenta que o imitar (mimesis) não é mero espelho passivo da realidade, mas uma representação organizada da ação humana e que essa representação só produz impacto (educativo, emocional, moral) quando respeita aquilo que é provável ou necessário dentro do mundo que constrói.

Segundo Aristóteles, uma narrativa — tal como a tragédia — demanda, dentre outros requisitos, um enredo que constitua “um todo” com início, meio e fim, e com eventos que se sucedem de modo necessário ou ao menos provável, evitando soluções forçadas ou coincidências inverossímeis. 

Em outras palavras: não basta que algo seja verdadeiro (ou dito como “realizado” na obra), precisa que pareça possível àquele que assiste ou lê. Caso contrário, o pacto de credibilidade entre a obra e o público se rompe, e a catarse, aquela purgação ou “liberação” de emoções que Aristóteles considera central à tragédia, torna-se inviável.

Aplicando esse olhar à novela Vale Tudo (2025)

No desfecho exibido ontem, observamos que essa regra foi violada de modo tão explícito que a própria função narrativa da obra parece se desfazer:

a) O tom do encerramento, que deveria provocar reflexão, incitar uma confrontação ética ou moral, gerar impacto emocional final, desaba no absurdo: a narrativa abandona a dimensão reconhecível da experiência humana, e passa a operar numa zona de artifício puro.

b) A vilã, antes símbolo da corrupção sistêmica e da ausência de qualquer limite moral, é absolvida sem que o público receba qualquer justificativa convincente para essa virada. Um personagem construído justamente como representação da corrupção e da falta de ética faz com que, ao ser inocentado, o próprio sentido da narrativa que o sustentava se desmonte.

c) A personagem Heleninha, que durante toda a trama foi responsabilizada por erros e crimes não cometidos, termina culpada por um crime inexistente, desconectado de sua trajetória e de sua construção psicológica.

d) A revelação sobre o caso Odete Roitman soa estranhamente forçada: elementos que até então pareciam desconectados se encaixam de repente, sem que o público tenha visto qualquer pista ou construção lógica que justificasse a virada.

e) O tom do encerramento, que deveria provocar reflexão, incitar uma confrontação ética ou moral, gerar impacto emocional final, desaba no absurdo: a narrativa abandona a dimensão reconhecível da experiência humana, e passa a operar numa zona de puro artifício.


Por que, segundo o olhar aristotélico, tal final fere gravemente o princípio da verossimilhança?

  • Quebra da probabilidade e necessidade
    A narrativa deixa de apresentar eventos que “podem acontecer” ou “costumam acontecer” e passa a exibir o que simplesmente “acontece porque sim”. Aristóteles afirma que o enredo deve respeitar o campo do “provável” ou do “habitual”, e adverte: o impossível, quando não sustentado por uma justificativa convincente, é sempre um erro.
  • Incoerência dos personagens
    Personagens bem-construídos precisam agir de acordo com suas disposições morais, psicológicas e de contexto social, com uma fidelidade que permite ao espectador reconhecê-los e identificá-los. No caso em apreço, a vilã “redimida” abruptamente e Heleninha “culpada” por ato sem consistência, quebram esse reconhecimento e o público vê fantasmas onde não existe fundamento.
  • Desgaste da catarse
    A catarse aristotélica exige que o espectador experimente piedade ou temor ou, mais amplamente, se conecte emocionalmente com a trajetória da ação. Se a ação se torna arbitrária, ou o desfecho se escora em artifício, essa dimensão se perde: não há mais enfrentamento ético, não há mais reflexão, resta apenas a sensação de ter sido enganado.
  • Ruptura do pacto ficcional
    Quando a obra abandona o campo do verossímil, o público deixa de “acreditar” no mundo simbólico que lhe fora apresentado. Em vez de imersão, há um retorno brusco à consciência de que aquilo tudo era “um jogo” e se o jogo se mostra mal preparado, a frustração se converte em indignação.

Em síntese

A novela Vale Tudo (2025), em seu capítulo final, parece dar um salto para fora dos limites do mundo que ela própria construiu e para os quais havia convidado o espectador.

Ao legitimar soluções abruptas, ignorar trajetórias estabelecidas, sacrificar a coerência psicológica dos personagens e abandonar o sentido ético que sustentava a história, comete uma infração grave ao que Aristóteles definiria como o fundamento da narrativa: que ela imite uma ação humana crível, condizente e dotada de lógica interna, de modo a provocar uma resposta emocional e intelectual no público. Sem isso, o resultado não é uma obra que funcione como arte, mas uma sucessão de artifícios vazios e narrativas desconectadas.

Justamente por isso a reação de indignação popular: porque, quando a arte abandona o possível e o coerente, o espectador se sente traído e nenhuma catarse real é possível onde a experiência humana foi negada.