Poetize-se e Outros Escritos

TRABALHO 02

Indignar-se

Num cenário onde a insensibilidade muitas vezes prevalece, é imperativo que acendamos a chama da indignação diante do que está equivocado. Diante de atitudes egoístas que corroem os princípios da solidariedade e de pessoas que, inadvertidamente, negligenciam o bem comum, a indignação emerge como uma voz que clama por justiça, um alerta moral que ecoa nas entranhas da sociedade. A indignação, longe de ser um suspiro na escuridão, é uma luz que rompe as sombras da apatia. Ao nos indignarmos, reafirmamos nosso compromisso com um mundo onde a compaixão é a força motriz e o bem comum é um pilar inabalável. Cada ato que desconsidera o bem coletivo é uma provocação à nossa ética, e é nossa responsabilidade responder com uma voz resoluta de repúdio.

TRABALHO 03

Nas sombras do auto-engano…

Avançamos, trilhando o caminho sinuoso da autoconsciência. Contudo, uma sombra traiçoeira emerge, chamando nossa atenção de maneira sutil e insidiosa.

Ela se revela como uma presença ardilosa, enganadora, que mina com astúcia a essência que nos define, fragmentando-nos em partes obscuras de nós mesmos. Nesse emaranhado de artimanhas, a confusão se instala na mente; transformamo-nos em marionetes de uma narrativa distorcida. 

É o autoengano, um ladrão de identidade que silenciosamente nos despoja de nossa verdade.

No jardim das ilusões, colhemos flores imaginárias, aconchegando-nos em histórias fictícias que transformam mentiras em verdades reconfortantes. Neste espetáculo de sombras, o autoengano tece um enredo trágico, transformando-nos em protagonistas de uma peça cujos papéis não nos pertencem. 

No entanto, há um grito, uma luz titubeante, um chamado para despertarmos da ilusão.

A consciência sussurra, desafiando as mentiras confortáveis, convidando-nos a encarar a verdade, mesmo que esta machuque. No desenrolar desta narrativa sombria, há a oportunidade de reencontrar a plenitude de quem somos. Ergamo-nos diante do autoengano, recusando ser meras marionetes, e abracemos a luz da verdade que, apesar de doer, liberta-nos para viver autenticamente.

Avançamos, trilhando o caminho sinuoso da autoconsciência. Contudo, uma sombra traiçoeira emerge, chamando nossa atenção de maneira sutil e insidiosa.

Ela se revela como uma presença ardilosa, enganadora, que mina com astúcia a essência que nos define, fragmentando-nos em partes obscuras de nós mesmos. Nesse emaranhado de artimanhas, a confusão se instala na mente; transformamo-nos em marionetes de uma narrativa distorcida. 

É o autoengano, um ladrão de identidade que silenciosamente nos despoja de nossa verdade.

No jardim das ilusões, colhemos flores imaginárias, aconchegando-nos em histórias fictícias que transformam mentiras em verdades reconfortantes. Neste espetáculo de sombras, o autoengano tece um enredo trágico, transformando-nos em protagonistas de uma peça cujos papéis não nos pertencem. 

No entanto, há um grito, uma luz titubeante, um chamado para despertarmos da ilusão.

A consciência sussurra, desafiando as mentiras confortáveis, convidando-nos a encarar a verdade, mesmo que esta machuque. No desenrolar desta narrativa sombria, há a oportunidade de reencontrar a plenitude de quem somos. Ergamo-nos diante do autoengano!!

Recuse ser meras marionetes, abrace a luz da verdade que, apesar de doer, nos liberta para vivermos autenticamente.

TRABALHO 04

Minha prece

Na quietude profundo da alma,  minha prece ecoa, sutil e profunda.

Não ergo nenhum altar, apenas me uno à essência pura de um murmúrio

que brota de um coração inquieto, em busca de conforto na vastidão do destino.

Não sigo rituais, apenas me entrego à sinfonia de um clamor silencioso

buscando no éter a razão de existir, em um diálogo íntimo com o divino racional.

É o suspiro daquele que não encontra refúgio em crenças vãs. 

Minha prece não se aprisiona em rótulos.

Passos Silenciosos

TRABALHO 05


Há dias em que levantamos da cama com o peso do mundo sobre nossos ombros, onde a simples ideia de enfrentar o dia nos consome. Cada movimento se torna um desafio, e colocar um pé fora da cama é como enfrentar uma montanha intransponível.

Nesses dias, a vontade de desistir, de se entregar ao cobertor e deixar o mundo lá fora seguir seu curso, é avassaladora. A mente clama por descanso, por um momento de paz em meio ao turbilhão de responsabilidades e expectativas. E, no entanto, algo dentro de nós nos impele a seguir em frente.

Dentro de nós, arde uma chama, frágil porém eterna, iluminando nosso peito, desafiando a escuridão e as probabilidades, que se recusa a sucumbir ao desespero. É essa chama que nos faz levantar, mesmo quando todas as razões nos empurram para baixo.



É um ato de bravura silenciosa, de resistência contra as adversidades invisíveis que nos rodeiam. Ao nos erguermos e enfrentarmos o dia, estamos desafiando o próprio destino, recusando-nos a sermos vencidos.

E assim, um passo de cada vez, seguimos adiante. Porque mesmo quando tudo parece sombrio, mesmo quando a esperança parece distante, há uma certeza que nos guia: não estamos sozinhos. Somos mais fortes do que imaginamos, e juntos, podemos superar qualquer obstáculo.

Então, mesmo nos momentos mais difíceis, mesmo quando a vontade de desistir parece insuperável, lembre-se: você é capaz de mais do que imagina. E cada vez que você se levanta, mesmo sem vontade, você está mostrando ao mundo a incrível força que habita dentro de você.


Split face of a woman transformed into angel on left and demon on right

A Hipocrisia da Virtude

TRABALHO 06

Ah, quão maravilhoso seria o mundo se as pessoas realmente praticassem aquilo que pregam com tanto fervor em seus discursos! Imagine só, um lugar onde a empatia não fosse apenas um adjetivo bonito usado em postagens inspiradoras nas redes sociais, mas uma prática cotidiana. Seríamos todos irmãos e irmãs, cuidando uns dos outros, sem esperar likes ou corações virtuais como recompensa.

E se o discurso de igualdade, tão eloquente nas timelines, de fato transpusesse as telas dos smartphones? Que revolução não seria! Talvez, finalmente, veríamos homens e mulheres sendo tratados com a mesma dignidade e respeito, não só nas postagens empoderadas, mas nas ações do dia a dia. O machismo incubado, esse vilão disfarçado, seria reconhecido e rejeitado com a mesma veemência com que é denunciado em threads virais.

Ah, e o que dizer das boas ações feitas sem a necessidade de serem registradas para a posteridade digital? Imagine um mundo onde a caridade não precisasse de um filtro bonito ou de uma legenda com hashtags. As ações falariam por si mesmas, e o bem seria feito pelo bem, não pela fama. Os “coaches” de plantão teriam que encontrar outra maneira de se promover, quem sabe, através de… Ah, sei lá, conteúdo autêntico e útil?

Se o mundo fosse menos hipócrita, viveríamos numa sociedade menos adoecida. Menos depressão causada pela comparação incessante com vidas “perfeitas” exibidas nas redes sociais. Menos ansiedade para manter uma imagem de virtude imaculada, enquanto os atos reais ficam muito aquém. Ah, um mundo onde as pessoas se importassem mais com o que fazem do que com o que dizem que fazem.

Talvez um dia, entre um post e outro, alguém se dê conta de que a verdadeira mudança começa fora da tela, nas pequenas atitudes que ninguém vê, mas que fazem toda a diferença. Até lá, seguimos com nossos discursos bonitos e nossa prática… bem, nem tão bonita assim.

A wizard in a cloak holding a staff walks through a luminous portal from a dark rocky area to a bright cityscape.

Travessia

TRABALHO 07

Sentir raiva é tempestade interna, 

Coração em chamas, busca por paz, 

Como apaziguar o turbilhão que consome? 

Onde está o vento suave do perdão sincero? 

Compreendendo que falhas são de todo humano, 

Mas e quando falta a humanidade, ainda falamos de humano?

É no amor que se tem o alívio mais verdadeiro.

Mas como olhar nos olhos de quem falhou? 

É preciso encontrar força quando a mágoa pesa tanto, 

É preciso enfrentar a dor com coragem e serenidade,

Mas como renovar laços que o incidente quebrou? 

Como reencontrar o caminho perdido na bruma, 

Onde a confiança se desmoronou? 

A vida ensina que cicatrizes fazem parte da jornada, E que a cura vem do tempo e do esforço contínuo.

Perdoar não é esquecer, é lembrar sem dor, reconstruir sobre ruínas.

A raiva se dissipa quando o coração encontra paz, 

E a tempestade interna cede ao nascer de um novo dia, 

Aceitação só vem com muita compreensão

E com ela, a possibilidade de tranquilizar a memória

Que meu coração seja paciente, que minha rotineira gentileza seja luz a me guiar nessa escuridão de ressentimentos, 

E que a coragem para perdoar, 

Seja a força que me leva…leve a um novo amanhecer.

Trabalho 07

Caiu do céu

O pássaro de metal despenca.

E junto com ele, caem histórias,

Vidas que pulsavam sonhos,

Experiências que moldaram corações.

Cada assento guarda um mundo,

Um universo único, cheio de luz.

E no instante em que o chão se aproxima,

Desaparecem os risos, as dores,

As memórias que jamais serão contadas.

Ali, na queda fria e fatal,

Vão-se as canções que nunca foram cantadas,

Os conselhos que nunca serão dados,

Os abraços que ficaram para depois.

O tempo para, mas a queda continua,

E cada vida se desfaz em cinzas,

Cada história, uma estrela que apaga,

Deixando o céu um pouco mais escuro.

Somos todos pedaços desse voo,

Fragmentos de histórias interrompidas,

Num universo que, por um momento, parou de girar.

Trabalho 08

O colar de pérola

Quando parei em frente ao espelho, meus olhos fixaram-se em torno do meu pescoço, ali, repousei aquele colar de pérola, tão delicado, tão lindo e saí para viver

Mas a vida não poupou, endureceu-se, tornou-se uma paisagem árida de esperança desfeita, as ruas que antes pareciam tão acolhedoras, agora se transfiguravam em sombras ameaçadoras,

O som dos meus soluços ressoava no silêncio da noite, ecoando como uma melodia triste.

As luzes da cidade piscavam à distância, cada intermitência lembrando-me da fragilidade do meu próprio brilho.

Segui em frente, tentando me agarrar à sensação de segurança que ainda havia, 

Buscava memórias que me conectasse ao meu antigo eu, àquela versão minha que ainda acreditava na beleza simples e na bondade do mundo.

Passei por rostos desconhecidos, cada olhar carregando suas próprias histórias. Me perguntei quantas delas se entrelaçavam à minha, 

Nesse momento me dei conta que eu estava sendo re-moldada pela dor, transformada em um novo protótipo de mim mesma…

Cada passo parecia mais pesado, mas continuei caminhando, sabendo que parar significaria sucumbir ao peso do mundo

Permaneci assim por algum tempo, aos poucos a dor cedeu espaço à esperança, um novo olhar, mais  experiente, surgiu…

Revelando novas maneiras de compreender  o mundo,

Num decorrer de meses, estava eu novamente em frente ao espelho e num relance, vi que o colar de pérolas ainda adornava meu pescoço;

Cintilante, delicado…

Ali estava para me lembrar que, apesar de tudo, ainda restava muito daquela menina de outrora dentro de mim.

Trabalho 09

Gosto do rito que me leva a sair de casa pra passear, como quem se prepara para um encontro com a vida. 

A escolha de cada peça de roupa, a dúvida entre o scarpin que desafia as calçadas ou o tênis que abraça o conforto.

Gosto de entrar na água quente, do óleo derramando sobre a minha pele

me sentindo envolvida…

Da água que desce como um fio sobre minha pele, contornando meus seios, dançando uma música que só a alma ouve. 

Gosto do reflexo no espelho, do rosto nu que ganha novas tonalidades com cada pincelada de cor. 

A boca, antes rosada, agora vestida de vermelho; 

os olhos, carregados de uma força quase mística.

Pauso por um instante, contemplando a simplicidade do momento,

ajeito a barra da blusa, dobro a manga da camisa

pequenos rituais que preparam o corpo para mais um dia, um momento, uma experiência

E o último toque, uma nuvem gelada que acaricia a pele, deixando um rastro de perfume, de mistério no ar,

Tudo isso pareça simples, indigno de poesia, mas já pensou nas milhares de almas que nem mesmo uma casa têm para sair, muito menos para passear? 

Esse pequeno rito, que para mim é um luxo, para outros é apenas um sonho distante. 

E assim, até esses singelos gestos carregam em si a profundidade de uma vida inteira.

Acho que Morrerei Jovem

Trabalho 10

Acho que morrerei jovem
não por pressa,
mas por intensidade.

Há em mim um incêndio antigo
que não sabe se apagar.
Sinto demais,
penso demais,
sou brasa acesa no meio da tarde.

Acordo com mil vozes dentro,
e cada uma me pede um mundo.
Corro.
Porque parar é morrer
sem o encanto da luta.

Não temo a morte,
temo a lentidão da alma,
o embotamento das cores,
a covardia de não ser inteiro.

Se eu morrer jovem,
que seja de tanto viver,
de tanto dizer o que calei,
de tanto amar o que me rasgou,
de tanto romper as cercas que me impuseram.

Não quero aplausos.
Quero vestígios.
Um rastro quente no peito de quem lembrar meu nome.

Acho que morrerei jovem,
mas deixarei envelhecer os poemas
em alguma gaveta esquecida
de quem ainda não desistiu de sentir.

Trabalho 11

Minha solidão é poética

Não, eu não me sinto sozinha.
O que eu tenho não é ausência, é excesso.
Excesso de pensamento, de sensibilidade, de percepções que não cabem nas conversas rasas.
Minha solidão não é carência. É escolha.

Quando me afasto, não é porque ninguém me quer por perto.
É porque, às vezes, o mundo grita alto demais…
E eu preciso do meu silêncio para ouvir o que só ele diz.

Não fujo das pessoas.
Eu apenas volto pra mim.
Pra esse lugar onde posso pensar sem me interromper,
sentir sem precisar explicar,
e ser sem precisar caber.

Enquanto tantos temem a solidão como um vazio,
eu a recebo como uma presença.
Ela é meu tempo expandido.
Minha pausa sagrada.
Meu lugar de respiro no meio da pressa do mundo.

Sou feita de encontros, sim.
Mas também de desvios.
De pausas longas.
De janelas abertas pra dentro.

Minha solidão é poética.
Porque nela escrevo o que ninguém me pediu.
Imagino o que ninguém vê.
E sou, enfim, inteira —
sem moldes, sem pressa, sem plateia.

Foto por Iren Fedo em Pexels.com

Trabalho 12

Há tempestades que não se vencem com força.

O corpo até resiste, o peito até suporta, mas há ventos que desorganizam por dentro.
São dias em que as nuvens pesam mais do que a própria carne, e o céu desaba não apenas sobre a cidade, mas dentro de nós.

Nessas horas, não é a rigidez que salva, mas o que ainda consegue florescer no meio do barro.
Um fio de palavra, uma música murmurada, um gesto ínfimo que insiste em permanecer.

A poesia não interrompe o aguaceiro, mas oferece outra geometria ao dilúvio.
Ela nos empresta olhos para ver o que se esconde nas frestas da água: o clarão possível, a promessa de um depois.

Não é sobre escapar da tempestade, é sobre não se perder de si mesmo enquanto atravessa, sustentando no íntimo uma chama que nada consegue apagar.

Trabalho 13

Aquilo Que Minha Boca Cala e Meu Corpo Grita

Bebo você nos olhos
como quem escorre vinho na própria ferida.
Fico assim: tonta de mundo,
descalça de juízo,
com a razão largada num canto
feito roupa velha depois da festa.

Você me olha
e algo em mim se incendeia
num lugar que não é corpo
nem espírito, é entre.
Esse abismo estreito onde os santos se perdem
e os loucos se reconhecem.

Paixão que não cabe em mim:
escorre pelas laterais da boca,
do peito,
do silêncio.
Transborda na palavra que não digo
e mesmo muda você sabe:
tudo em mim é grito
quando você me olha

Eu te queria simples,
mas você me atravessa em complexos:
nervo, lembrança, útero de ideias,
uma cidade inteira acendendo as luzes
ao mesmo tempo.
E eu, míope de mim,
só enxergo o teu nome
grafado em todas as paredes.

Me perco no jeito que você me olha
como quem entra num templo
e esquece o caminho de volta.
Não sei se é milagre
ou maldição bonita,
mas desde esse encontro
sou menos “eu” e mais
esse nós sem borda.

Há uma loucura mansa nisso:
quero te habitar por dentro
como pensamento fixo,
quero que você me use
como se usa um sonho bom
repetidas vezes,
até gastar as imagens
e sobrar só o calor.

Fundidos:
não em gesto,
mas em destino.
Quando você respira
parece que meu peito concorda.
Quando você cala
meu silêncio responde.

E se um dia me perguntarem
o que foi que me embriagou,
não vou dizer teu rosto,
nem tua boca,
nem tua pele.

Vou dizer:
aquele instante
em que o teu olhar me escolheu
e eu, bêbada de tudo,
aceitei
não ser mais
uma só.

Trabalho 14

É como se a vida tivesse tropeçado dentro de casa.

Não foi a primeira rachadura na parede,
mas essa fez os quadros tremerem…

Desde então, andava descalça por dentro de mim,
mas com medo de pisar em cacos
que eu mesma fingi não ver por anos.

Quem olhava de fora, achava bonito
chamar isso de “destino”,
“prova de amor”,
“papel de companheira”.

Eu só via um corredor comprido
com luz fria no teto
e uma voz distante me chamando
pra um lugar onde eu ainda não sei onde é
nem se quero mesmo entrar.

Por fora, parecia calma.
Por dentro, rearranjava móveis,
memórias, promessas,
como quem tenta achar um espaço
onde ainda coubesse o próprio corpo.

Não é que eu estava presa.
É que tudo dentro de mim
era mexido e mudado de lugar o tempo todo


As certezas, as faltas,
o cansaço antigo que eu vestia
como roupa confortável…era só um modo de driblar o que eu já sabia

Tem um ponto em que o coração
para de fazer cena
e passa a sussurrar.
O meu andava falando baixo há anos,
como quem tenta não atrapalhar a casa, que precisa ser forte

De vez em quando,
uma luz de fora atravessava a janela:
um gesto, um olhar, uma conversa
que me lembrava que ainda existia mundo
para além dos corredores brancos
e das obrigações sem nome.

Ninguém é salvador,
ninguém é vilão.
Era só um feixe de luz
desenhando no chão
o contorno do buraco
que já estava ali por algum tempo

Hoje, assinado em definitivo.
Eu fui…mesmo prometendo eternidades.

Me dei conta de tudo quando puxei uma cadeira
e sentei comigo mesmo
Escutei o que em mim ainda tremia
e o que em mim havia morrido
Prestei atenção no que insistia em nascer
mesmo em terreno baldio.

Talvez um dia eu chame isso de coragem.
Por enquanto, dou o nome de respiro.

E, enquanto tudo lá fora
pede postura, papel, resposta,
eu escolho esse pequeno ato de rebeldia:

ficar ao lado da única pessoa
com quem vou conviver até o fim,
mesmo que tudo desmorone de novo:

Eu.

Trabalho 15

Quando você dorme,

Quando você dorme,

o mundo, por um instante,

perde a brutalidade.

Fica tudo suspenso:

o barulho das coisas,

a pressa dos dias,

essa fome antiga que tenho

de caber em algum lugar

sem precisar explicar meus excessos

A tua respiração

vai arrumando o quarto por dentro,

e eu, que sempre fui desordem,

quase acredito

que também sei repousar.

Há uma religiosidade nisso.

Não a dos altares,

mas a dos corpos que encontram paz

sem pedir licença ao caos.

Teu sono me comove

como comove uma casa acesa

vista de longe por quem passou a vida inteira

procurando abrigo.

Eu fico ali,

quase sem respirar pra não fazer barulho,

guardando esse instante

em que teu descanso

parece também descansar algo em mim.

Te olho

como quem vigia uma chama

que não pode apagar.

Como quem encontrou, tarde demais,

um lugar no mundo

e tem medo de mover a mão

e perder tudo.

Meu corpo, tão treinado para resistir,

se entrega feito água

quando encontra declive.

Porque você me atravessa

como coisa antiga,

como lembrança que eu ainda não vivi,

como destino entrando sem bater

numa casa que já não mais está em ruínas.

Eu queria te amar com calma,

mas em mim o amor

sempre vem com incêndio.

Eu te amo nos detalhes,

nos pedaços mínimos,

na dobra do silêncio,

no cansaço da tua respiração,

no jeito como teu corpo abandona o mundo

quando confia na noite…enquanto estou ao teu lado

E talvez seja isso

que me parte ao meio:

você ali,

tão perto,

tão real,

tão inteiro no teu próprio mistério,

e eu querendo te guardar

num lugar onde o mundo (e suas dores) não te alcance.

Porque quando você dorme,

eu não desejo posse.

Desejo permanência.

Desejo que a vida,

essa coisa bruta e impaciente,

tenha a delicadeza

de não tocar em nós por algumas horas.

Que nada nos chame.

Que nada nos cobre.

Que nada nos devolva

à violência dos dias.

Só teu corpo em paz.

Só minha saudade em vigília.

Só esse sentimento, impronunciável,

fazendo silêncio

para não acordar você.

eu queria ficar ali,

presa nesse intervalo santo,

nesse momento em que você respira

e meu peito obedece.

Queria morar

no segundo exato

em que teu sono

desarma o que em mim vivia em vigília.

Sem promessa.

Sem futuro.

Sem medo.

Só eu,

te olhando dormir,

com saudade de você

mesmo antes de você ir